Os seres humanos costumam falar coisas, cujo conceito ou significado do que é dito passa despercebido, sem que se possa fazer uma reflexão mais cuidadosa daquilo que se diz e também daquilo que se faz.
Final de ano é sempre besuntado de muitas festas, bem como se configura como um momento perfeito para a proliferação de promessas e demagogias, cuspidas por todos e para todos os lados. É o tempo em que o espírito de solidariedade e fraternidade se manifesta vigorosamente, chegando até a aparentar uma energia uníssona e permanente no caminho de uma forte esperança pela união, amor e paz entre os homens. Contudo, para a infelicidade de todos, toda essa corrente fraterna, apesar de seu inestimável valor, muitas vezes acaba se revelando como o nível mais alto da hipocrisia e da mediocridade humana.
Frases como “feliz natal e próspero ano novo!” são comuns nessa época. Mas qual o significado disso se digo apenas “da boca pra fora”? pouco me importando se aquela pessoa para qual digo “feliz ano novo” será ou não feliz!
Aí é que começa o primeiro ato hipócrita do ano, pois começamos o ano novo já falando coisas sem saber da sua alta relevância, porque falamos coisas “da boca pra fora”; porque a coisa “da boca pra fora” não é sentida e nem vivida; porque estamos acostumados a reproduzir bordões e slogans do modismo pérfido e perverso de uma sociedade carcomida pelo consumismo exacerbado; porque começamos o ano dizendo mentiras para nós mesmos. Enfim, não conseguimos ainda nos perceber individualmente como seres parte de uma coletividade e, logo, não conseguimos compreender minimamente a realidade violenta da qual a coletividade faz parte.
Não se pode dizer “feliz ano novo” para o outro, se colocando apenas no seu lugar – este pedestal inviolável da vaidade e do egoísmo. Um “feliz ano novo” tem mais sentido, quando nos colocamos no lugar do outro, com o intuito exclusivo de compreender a sua realidade que também, de algum modo, faz parte da minha realidade. Um “feliz ano novo” dito “da boca pra fora”, além de ser falso, automaticamente já contribui para que o próximo ano seja trágico e impiedoso com a humanidade. Quando se deseja verdadeiramente “feliz ano novo”, estamos dando ênfase naquilo que temos de mais valioso dentro de nós: a verdade. O Filósofo grego, Platão, dizia que os verdadeiros filósofos são aqueles que amam a verdade. No mundo de hoje, em que a injustiça se fortalece entre os homens como fruto da mentira, há uma enorme necessidade de começarmos o ano falando a verdade, pois os homens, mesmo os que não são filósofos, precisam se apaixonar pela verdade. Os seres humanos poderiam iniciar o ano falando a verdade, somente a verdade, nada mais que a verdade, ainda que fosse a sua verdade individual, mas que fosse a verdade.
Todo ano novo é uma nova chance de verdade para a humanidade. Alguns podem achar essa assertiva romântica, mas todos os homens deveriam dar mais valor às novas chances. É a chance de negar propina ao fiscal, ao policial, ao guarda de trânsito, moralizando todo e qualquer tipo de aparato relativo a segurança. É a chance de reivindicar os direitos a saúde, educação, cultura, saneamento, com o objetivo de melhorar a qualidade de vida. É a chance de todos olharem para si e rever conceitos. Buscar na verdade a solução dos problemas que afligem a sociedade.
Ainda que esse pequeno artigo pareça hipócrita, nas suas entrelinhas deve conter linhas de verdade, assim como a verdade deve está nas entrelinhas do ano que se inicia. Este pequeno artigo também não tem a intenção de dá lição de moral a quem quer que seja. No entanto, todo ser humano deve saber que um mundo melhor é possível e, para isso, todos devem fazer a sua parte, visando uma transformação que se faz urgente e que seja interessante à toda a humanidade. Sendo que essa transformação começa pelo policiamento das mentiras que contamos, lemos e ouvimos diariamente. Nesse caso, a atenção é imprescindível e, para tanto, é importante saber que a mentira é incompatível com a realidade e a verdade é reflexo do real.
Temos uma nova chance para a verdade, que começa por nós. Isso significa ser solidário e fraterno de verdade, ser tolerante e generoso de verdade, agindo com equilíbrio e prudência, tendo como princípio uma ética fundamentada na prática das virtudes.
Portanto, para todos e por todos nós, Feliz Ano Novo!
quinta-feira, 1 de janeiro de 2009
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