Um grito estarrecedor ecoou na encruzilhada da morte.
Aquela noite estava lúgubre e a lua, coberta pelas trevas, era um sinal de um forte presságio.
O ônibus vinha em marcha lenta. Quase vazio na meia noite que se aproximava da rua pacata e misteriosa, onde morava Lorena, mulher de aproximadamente trinta anos, professora bonita, inteligente... conhecida por ser muito batalhadora, e que acordou sobressaltada com o grito que acabara de ouvir.
Com fome e cansada de um dia cheio de compromissos no trabalho, Lorena era a única passageira daquele veículo preguiçoso, que já se aproximava da esquina, onde desceria receosa para caminhar três quarteirões até sua casa.
Ao descer do ônibus, Lorena abraçou forte sobre o peito os livros que trazia e caminhou rápido como se estivesse fugindo de algo que não existia, mas que estava ali, perseguindo-a naquela noite lúgubre. Ao chegar na esquina do primeiro quarteirão, sentiu um cheiro esquisito que a fez parar no meio da rua, como se uma parede invisível interceptasse a sua passagem. Mas, felizmente, para Lorena, não era parede invisível, nem forças do além. Era um cheiro. Um cheiro que lhe causava uma sensação gostosa de fome, um desejo inexorável de devorar algo ou alguém, que tornava seus dentes mais afiados e que lhe provocava calafrios por todo o corpo.
Imediatamente, Lorena começou a farejar desesperadamente o cheiro como uma cadela que procura o cão. Percebendo que o cheiro vinha da esquina do próximo quarteirão, começou a caminhar mais rápido – só que dessa vez ela não estava com aquela sensação neurótica de perseguição do inimigo. Ela era o próprio inimigo que perseguia avidamente sua presa.
Na esquina do segundo quarteirão, havia uma barraca com status de “lanchonete”, que ficava aberta durante todas as noites. O dono: um homem branco, alto e gordo. Tão gordo que parecia um Ogro dos contos clássicos franceses. As pessoas costumavam chamá-lo de “Gigante Europeu”.
Lorena sempre passava por ali, mas nunca observara a barraca, embora conhecesse o dono por intermédio do marido Gabriel. Só que nessa noite tinha algo atraente e incomum: o cheiro diferente que vinha da barraca.
Controlando sua ansiedade de comer, Lorena foi até a barraca, sentou-se a uma das mesas e ficou observando a carne fresca que fumegava nas brasas da churrasqueira. Ela estava seduzida por aquele cheiro de carne assando no estalo do fogo que parecia falar a cada gota de sangue que caía nas brasas: “SCHURRASSSSSCO, SCHURRASSSSSCO...”. Naquele momento, sua cabeça já estava zonza com o olhar perdido na fumaça e seu corpo balançava como se estivesse numa sessão de hipnose, ouvindo aquela voz cavernosa: “SCHURRASSSSSCO, SCHURRASSSSSCO”. Lorena, não resistindo mais ao cheiro tentador da carne, perguntou:
– Quanto é o churrasco?
– Três reais. Respondeu o “Gigante Europeu”.
– Prepare um para mim. Por favor!
O “Gigante Europeu” prontamente se dirigiu até a churrasqueira e cortou um suculento pedaço da carne ainda mal passado, o qual Lorena, possuída pela avidez do demônio, comeu prazerosamente como um orgasmo que há muito tempo não sentia.
Saciada a fome, Lorena pagava a conta, enquanto a carne continuava a queimar o sangue na brasa: “SCHURRASSSSSCO, SCHURRASSSSSCO”. E foi embora satisfeita e feliz rumo ao terceiro quarteirão, sem saber que, naquela noite lúgubre, havia degustado deliciosamente o sangue do próprio marido.
NILSO EVARRO MERCRI
EM: 02/08/2006 ÀS 16:15hs.
quinta-feira, 24 de abril de 2008
APOCALÍPTICO
Tive um sonho:
Não existia dia e noite – o sol e a lua haviam sucumbido;
O céu e o mar foram tragados pelo nada.
Na terra, homens e mulheres gritavam,
Morrendo simultaneamente
Com o eco de seus gritos lancinantes de horror,
Enquanto, no universo, os planetas diluíam-se,
Sendo engolidos com suas galáxias pelo infinito.
Das trombetas
Não se ouvia a música,
Nem dos anjos se via
A dança de suas prolixas asas.
Não existia Deus!
Mas havia, ainda, tempo
E espaço para se sonhar.
Nilso Evarro Mercri
Em: 28/11/2004
Às 20:00hs.
Não existia dia e noite – o sol e a lua haviam sucumbido;
O céu e o mar foram tragados pelo nada.
Na terra, homens e mulheres gritavam,
Morrendo simultaneamente
Com o eco de seus gritos lancinantes de horror,
Enquanto, no universo, os planetas diluíam-se,
Sendo engolidos com suas galáxias pelo infinito.
Das trombetas
Não se ouvia a música,
Nem dos anjos se via
A dança de suas prolixas asas.
Não existia Deus!
Mas havia, ainda, tempo
E espaço para se sonhar.
Nilso Evarro Mercri
Em: 28/11/2004
Às 20:00hs.
Nua Flor
Nua,
Te contemplo de modo transcendente
Nessas realidades de encantos sem cores,
Onde tudo é verdade transparente
Como os olhos dos seres sem amores.
Nesses caminhos que percorres voando,
As cortinas indolentes ondulam tuas curvas
E salientam tua pele dançando
No vácuo da avenida
De cores turvas.
Nesse jardim cinzento,
Te sinto sublime
Como uma única cor
Soprada no vento
Que te leva, num vazio de tormento,
À uma dimensão colorida
(ao mundo da minha vida),
Onde cheiros e sabores
A ti serão servidos
Nas pétalas dos teus gemidos.
Vens esbanjando no rebolar dos teus quadris
A sensualidade de desejos sutis
Que revelam abstratamente
Tua vontade de beijar intensamente
As dores dos meus jardins.
Nua,
Vens florescendo no jardim das tuas madeixas
O calor da tua intemperança,
Onde habitam as imagens pervertidas
(Fruto controvertido e confuso das minhas queixas),
Que reacendem as chamas introvertidas
Das cinzas de minha esperança.
Quando nua vens em minha direção,
Transpassas a fragilidade da minha alma,
Deixando nas angústias do coração
Canduras no meu peito,
Ternuras do teu eu insuspeito,
Incitando-me o desejo de uma paixão,
Cuja natureza assassina,
Instiga fantasias de volúpias depravadas
Em minha infértil imaginação,
Que engendra ondas de uma canção
Na calada da treva da madrugada.
Nua,
Vens severa,
Intensa como a fera
Escondida numa virgem bela,
Desarrumando meus sentidos,
Ferindo com os espinhos de uma flor banida
Meus pensamentos em loucura distorcida,
Onde predominam todos os instintos
Embriagados de luxúria
E prazeres desmedidos;
Onde reinam as injúrias
De crimes brutalmente cometidos
Como a tua imagem nua,
Transcendentalmente criada
Em forma de carne crua
Cruelmente a ser devorada
Por lobos em noite de lua.
És como te construo,
No reflexo da lua cheia,
Na arquitetura rústica das minhas antropofagias
Salpicadas de orgasmos densos,
Onde és presa do sacrifício das minhas orgias
Porque és deusa sem amor,
Nua em flor,
Nas verdades das minhas fantasias.
NILSO EVARRO MERCRI
EM: 14/04/2008
ÀS 01:22h.
Te contemplo de modo transcendente
Nessas realidades de encantos sem cores,
Onde tudo é verdade transparente
Como os olhos dos seres sem amores.
Nesses caminhos que percorres voando,
As cortinas indolentes ondulam tuas curvas
E salientam tua pele dançando
No vácuo da avenida
De cores turvas.
Nesse jardim cinzento,
Te sinto sublime
Como uma única cor
Soprada no vento
Que te leva, num vazio de tormento,
À uma dimensão colorida
(ao mundo da minha vida),
Onde cheiros e sabores
A ti serão servidos
Nas pétalas dos teus gemidos.
Vens esbanjando no rebolar dos teus quadris
A sensualidade de desejos sutis
Que revelam abstratamente
Tua vontade de beijar intensamente
As dores dos meus jardins.
Nua,
Vens florescendo no jardim das tuas madeixas
O calor da tua intemperança,
Onde habitam as imagens pervertidas
(Fruto controvertido e confuso das minhas queixas),
Que reacendem as chamas introvertidas
Das cinzas de minha esperança.
Quando nua vens em minha direção,
Transpassas a fragilidade da minha alma,
Deixando nas angústias do coração
Canduras no meu peito,
Ternuras do teu eu insuspeito,
Incitando-me o desejo de uma paixão,
Cuja natureza assassina,
Instiga fantasias de volúpias depravadas
Em minha infértil imaginação,
Que engendra ondas de uma canção
Na calada da treva da madrugada.
Nua,
Vens severa,
Intensa como a fera
Escondida numa virgem bela,
Desarrumando meus sentidos,
Ferindo com os espinhos de uma flor banida
Meus pensamentos em loucura distorcida,
Onde predominam todos os instintos
Embriagados de luxúria
E prazeres desmedidos;
Onde reinam as injúrias
De crimes brutalmente cometidos
Como a tua imagem nua,
Transcendentalmente criada
Em forma de carne crua
Cruelmente a ser devorada
Por lobos em noite de lua.
És como te construo,
No reflexo da lua cheia,
Na arquitetura rústica das minhas antropofagias
Salpicadas de orgasmos densos,
Onde és presa do sacrifício das minhas orgias
Porque és deusa sem amor,
Nua em flor,
Nas verdades das minhas fantasias.
NILSO EVARRO MERCRI
EM: 14/04/2008
ÀS 01:22h.
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