segunda-feira, 15 de setembro de 2008

ARTIGOS

CHALÉ TAVARES CARDOSO: BIBLIOTECA OU A CASA DO ESPANTO ?

Quem passa pela Rua Siqueira Mendes, esquina da Travessa São Roque, em Icoaraci, com certeza deve sentir uma profunda dor de indignação ao ver tamanha displicência do poder público para com um dos mais importantes patrimônios históricos e culturais da cidade.
A Biblioteca Pública Municipal de Belém “Avertano Rocha”, abrigada no Chalé Tavares Cardoso, antes referência como espaço de realização, fomentação e difusão da diversidade cultural na cidade, atualmente sofre um retrocesso em seu funcionamento quanto espaço estimulador da leitura, da criação e de mecanismo de transformação social. O efeito negativo desse golpe atingiu diretamente a sociedade e os movimentos culturais, principalmente os estudantes, grupos de teatro, dança, capoeira, RPG e poesia, que necessitam do espaço para pesquisar, produzir e mostrar seus trabalhos artísticos.
O descaso generalizado da direção da instituição, afinada com os quase quatro anos da fraca administração municipal, não se restringe apenas ao acesso limitado para a pesquisa ou à reforma interminável do prédio, mas, sobretudo, à extinção dos serviços de extensão, a exemplo do Ônibus e Barco Biblioteca, que atendiam às necessidades de informação e leitura das comunidades carentes da periferia de Belém e áreas ribeirinhas; e dos projetos artístico-culturais de cunho social desenvolvidos e direcionados às crianças, jovens e adolescentes em situação de risco.
Essa “chacina” contra a arte e a cultura, é reflexo do despreparo técnico e da falta de conhecimento da realidade social. Se caracteriza até mesmo como crime porque infringe diretamente a Constituição Federal, que garante ao cidadão o direito de ter acesso à arte, à educação, à cultura e ao lazer. Mas parece que o atual prefeito, que desde a última eleição municipal promete tanto em investir na educação de Belém, não leu a Constituição Federal.
Dessa forma, não há como não se sentir ofendido diante dessa concepção ultrapassada, conservadora, com ar autoritário e visão desumana. É ultrapassada porque pensa biblioteca nos moldes tradicionais, como depósito de livros. É conservadora e autoritária porque pensa cultura isoladamente, de cima para baixo, sem diálogo e sem interatividade com a comunidade. E é desumana porque tira um bem imprescindível na formação da consciência crítica do ser humano, que é a informação. A informação dá poder, mas não me refiro ao poder de oprimir o outro, e sim do poder de conhecer a si, respeitando as diferenças dos outros no intuito de construir uma cultura de paz, de dignidade e ética nas ações. Nesse caso, a leitura é o melhor caminho, pois como já dizia o nobre poeta Mário Quintana: “Os livros não mudam o mundo. Quem muda o mundo são as pessoas. Os livros mudam as pessoas”. Mas creio eu que o nosso prefeito também não leu Mário Quintana.
A concepção anti-cultural, fruto da insensibilidade e da ignorância da administração de Duciomar Costa (que foi apoiado pela milionária Valéria, a “Madre Tereza” do Demo, que se diz traída pelo Dudu), que é cega, surda, muda e se mostra completamente mórbida diante da atual situação da nossa biblioteca, além de destruir os bons projetos sociais deixados pelo ex-prefeito Edmilson Rodrigues, extinguiu o museu de cultura popular e provocou um distanciamento de grande parte dos usuários que direta ou indiretamente usufruíam das ações de lazer e entretenimento voltados para a prática da leitura, como: espetáculos de teatro, encontros com escritores, sessões de cinema, etc.
Essa administração conservadora – para não chamá-la de burra –, já demonstrou em várias ocasiões a sua incapacidade de diálogo com os movimentos sociais e a sua incompetência nas ações consideradas salutares à cidade, e é impossível não perceber a forma covarde e irresponsável, com a qual esse governo municipal conseguiu desestruturar toda uma concepção de biblioteca que estava fundamentada na construção de uma política de inclusão social, igualdade e promoção da paz. A verdade é que enquanto presenciamos acomodadamente a queda gradativa do Chalé, a prefeitura asfalta onde já tem asfalto. Ou alguém é idiota a ponto de acreditar que as travessas Cristóvão Colombo e São Roque precisavam ser asfaltadas? Se era para asfaltar alguma rua, por que não asfaltou as ruas do Paracuri ou as várias baixadas que alagam no Distrito? Por que não fez pelo menos a manutenção da nossa orla que está abandonada? Onde estão os vereadores: Armênio, Mário Corrêa e Salma Nassar? E o Croelhas, antes de se candidatar, não era o agente distrital? Onde estavam estes, que em época de campanha, tanto amam Icoaraci? Isso é revoltante! É nojento para um ser humano sensato. Sem querer ofender ninguém, mas tenho que dizer: “Só um imbecil não é capaz de perceber que está a quase quatro anos sendo enganado”.
Infelizmente, para toda a população de Belém e, principalmente para a comunidade icoaraciense, hoje o Chalé Tavares Cardoso não possui sequer características de uma biblioteca tradicional, mas apresenta uma atmosfera aterrorizante semelhante a da “casa do espanto”.
A Biblioteca Pública Municipal de Belém “Avertano Rocha”, a despeito do que muitos pensam, é atualmente o retrato de um ambiente semiânime, de fachada pacata e grotesca, cujo prédio sufoca os livros onde as letras se transformam em pó, enquanto o verbo embarga na garganta do silêncio, pedindo socorro!

Evanildo Mercês

4 comentários:

Evantropofagico disse...

muito bom!

Michelle Pires disse...

Mano tô contigo...

Rosilene Cordeiro disse...

Amore, passei aqui. Visitei pela primeira vez teu cantinho de conversa com o público. Devo te dizer que senti uma emoção singela e um certo ar de orgulho por conhecer uma persona tão grandiosa e fazer parte de teu seleto grupo de amigos e apreciadores. Eu que partilhei um pouco de tuas composições em sarais intimos ao telefone em madrugadas poéticas entre curativos e injeções...rr acolhendo em mim palavras-brasa de ternura e caos. O poema que me deste, um presente inesperado e caro ao qual quero fazer jus nesse tempo de futuro que nos cabe.. O que te dizer senão obrigada pela sensibilidade extrema que te faz escrever um, dois e vários livros "a mão cheia..." Depois de tudo que tal aquele para crianças?! Não vejo a hora de partilhar versos brincantes e cantantes com meus pequenos esedentos alunos. Há uma sede literária em nossos pequenos, precisamos alimenta-los de beleza e esperança.
Saúde e vida longa ao poeta desta vila que é toda SORRISO. Conte comigo na platéia que te assiste e aplaude muito.
Tua amiga e mana de sonho, Rose

Francinete Medeiros disse...

Pela primeira vez passei aqui.
adorei o site, esta linso. vc merece tudo de bom e muito.
que Deus te conserve sempre assim.Esta pessoa grandiosa e cheia de sonhos.